Oi pessoal! Tudo bem? Faz muito tempo que eu não posto nada por aqui, então, para começarmos de novo, vim postar a entrevista que fiz com a nossa queridíssima Renata Ventura!
1- Como foi escrever a história na favela Santa Marta em 1997?
Envolveu muita pesquisa, porque a Santa Marta de hoje é muito diferente do que era em 1997: tem bondinho, UPP, casas coloridas, projetos sociais... Em 1997, a comunidade era completamente dominada pelos traficantes. A polícia fazia incursões quase diárias, procurando pelo chefe do tráfico. Foi uma época extremamente violenta.
E, exatamente por isso, é um ambiente perfeito para a construção do meu personagem principal. Quando o livro começa, Hugo está fazendo 13 anos de idade, mas já viu muita coisa ruim na vida. Já testemunhou assassinatos, torturas... já se meteu com gente que não devia... está fugindo, ferido e vendo a possibilidade de aprender magia como a única chance que ele tem de sobreviver.
2- No seu site você coloca uma nota em que o Hugo se mete em uma confusão e você não sabe como tirar ele dessa. Como é escrever um livro pela visão de uma criança que passa por muitas coisas durante sua vida, tem um temperamento forte e descobre que tem a chance de se vingar e proteger outras pessoas?
É um prazer escrever esse tipo de personagem, porque a gente realmente se surpreende com ele enquanto escreve. Hugo tem uma personalidade muito forte e, de certa maneira, ele já deixou de ser criança há muito tempo. Talvez nunca tenha realmente sido uma. Viver no ambiente hostil em que ele viveu, sendo sempre ameaçado por um dos chefes do tráfico, ou pelos namorados de sua mãe, ou às vezes até mesmo pela polícia... A infância dele realmente não foi fácil. E isso faz dele um jovem arisco, agressivo, desconfiado. Apesar de ele querer ser uma boa pessoa, querer fazer a coisa certa, ele às vezes acaba agindo por instinto.
E, ao mesmo tempo que é um prazer escrever um personagem desses, é também super complicado, porque é um personagem difícil de controlar. Muito difícil descobrir a dose certa de revolta, medo, raiva, egoísmo e desejo de ser aceito. Ele pode até ser um menino doce em certas circunstâncias, mas se ele sente qualquer sinal de ameaça, por mínima que seja, ele já entra na defensiva, já fica agressivo – mesmo que seja contra um amigo - e suas palavras às vezes podem ferir tanto quanto sua varinha.
3- Muitas vezes nos deixamos ser levados pelo ódio e pela vingança, e fazemos muitas besteiras. No seu livro, tem algum momento em que acontece isso com algum personagem?
Hugo faz muito isso. Ele age por instinto, e o instinto dele envolve se defender agressivamente de vez em quando, e fazer escolhas egoístas, sem pensar nas consequências. E as consequências, no caso dele, tendem a ser gigantes. Hugo sente, sim, muito ódio de certas pessoas e situações; às vezes com razão, e ele se vinga que é uma beleza. Haha. Mas ele não é só isso. Ele também pode ser doce, carinhoso. No fundo, ele tem um coração bom. Mas teve uma vida complicada.
4- Enquanto você escrevia seu livro, você pedia a opinião das pessoas logo ou preferia deixar para o final?
Eu tenho um amigo em especial que lia tudo que eu escrevia enquanto eu estava escrevendo. Eu terminava um capítulo e enviava direto pra ele. Ele sabe tudo que vai acontecer na série, em todos os livros, e a opinião dele continua sendo essencial para mim. Ele conhece profundamente cada personagem e às vezes defende alguns deles contra mim, rsrs. Algumas ideias que ele teve mudaram muito o rumo de alguns dos acontecimentos do livro. Para melhor.
5- Como você se sente com a relação à ajuda que algumas pessoas deram para o seu livro?
O auxílio desse meu amigo e de meus pais foi essencial. Eles leram e releram o livro várias vezes, procurando erros, dando sugestões, etc. Também me ajudaram muito as dicas que algumas pessoas me deram sobre como melhorar a escrita e como enviar meu livro para uma editora. Vários blogs listam dicas muito úteis a esse respeito. É só procurar no google que você vai achar vários.
6- Os trabalhos que você fez antes de escrever o livro influenciaram na história?
Sim, tudo que a gente faz e aprende acaba influenciando na história. Todos os livros que a gente lê, todas as notícias que a gente ouve, podem modificar a trama do livro; podem inspirar diálogos e até a criação de um personagem. Um grande exemplo disso é um personagem de meu livro chamado Griô, um gênio africano poderoso que conta histórias para os alunos usando magia. Eu tive a ideia quando trabalhava em cinema documentário e precisei fazer uma pesquisa sobre os contadores de história de um projeto chamado Nação Griô. Fui pesquisar mais a respeito e descobri que “Griot” é o nome que a tradição oral africana dá a seus contadores de história. E meu Griô acabou virando um personagem super importante no livro.
Minha monografia de fim de curso de Jornalismo também é outro exemplo. Nela, eu analisei a síndrome de colonizado: aquela mania que temos de só gostar do que vem de fora e menosprezar o que vem do Brasil. No meu livro, há um personagem que fala muito disso.
E é interessante ver essa tese se comprovando em alguns comentários, de pessoas dizendo que não querem ler meu livro porque ele se passa no Brasil. É interessante esse preconceito. Triste, mas interessante.
7- A Arma Escarlate vai ter continuação?
Sim. Quando a gente se apaixona pelos personagens, é muito difícil abandoná-los. Os leitores sabem bem disso. A gente sempre quer saber mais e mais sobre eles. Eu também quero, rs.
Eu planejo escrever cinco livro sobre o Hugo e mais um sexto livro com a história do vilão principal, que ainda não apareceu nesse primeiro (a não ser em uma pequena cena, que não vou dizer qual é, rs).
Já estou organizando as 400 páginas de anotação que tenho sobre o segundo livro para poder, então, começar a escrevê-lo. Muitos dos diálogos estão prontos, e tudo que irá acontecer ao longo da série inteira já está planejado. Só preciso ordenar os eventos– e essa é a parte mais complicada.
8- Qual sua opinião sobre a leitura no Brasil?
Estamos melhorando. Eu me impressionei ao entrar no Skoob (uma rede social para leitores brasileiros), e ver que ela tem mais de 540 mil usuários. Isso prova que não é verdade o mito de que brasileiro não gosta de ler. Quando incentivado, ele adora! Mas é preciso incentivar as crianças a lerem desde cedo, recomendando livros que sejam para a idade delas; que sejam de aventura, de fantasia, e não literatura clássica. Deixe os clássicos para mais tarde, quando elas já estiverem apaixonadas pela a leitura. Só assim elas irão apreciar de verdade essas histórias. Pelo menos essa é minha opinião.
Além disso, precisamos estimular a leitura de autores nacionais. É ótimo ler livro estrangeiro, eu concordo, mas os livros nacionais são tão bons quanto, e precisamos acabar com esse preconceito de que histórias legais não podem ter o Brasil como cenário. Esse preconceito nasce da falta de costume em se ler autores nacionais. O Brasil é um cenário fantástico, com infinitas possibilidades.
10- Deixe um recado para nossos leitores e futuros autores
Para os leitores: leiam os autores nacionais com a mente aberta para a novidade. Não leiam tentando fazer comparações a cada frase; simplesmente entrem na história e se divirtam!
Para o futuro autor, eu digo: não desista! Estude seus escritores favoritos, analise os estilos deles, veja como eles narram a história... aprenda os truques de como escrever bem. E cuide de seus personagens. Se apaixone por cada um eles!

Placebo é como se denomina um medicamento ou procedimento inerte, cujos efeitos terapêuticos ocorrem devido às crenças e expectativas do paciente de que está sendo tratado. O seu efeito é muito estudado pela medicina, pois ele é real e pode mesmo trazer benefícios ao paciente.



